Feminicídio cresce em MT e defensora alerta: “É um crime anunciado”
Em 2022, 47 casos de feminicídio foram registrados no Estado; maioria das vítimas morre dentro de casa.

Beatriz Passos | RDNews
A desigualdade de gênero constrói um cenário perigoso para a população feminina em Mato Grosso. Levantamento da Polícia Civil aponta que 101 mulheres foram assassinadas no Estado em 2022, sendo que 47 casos foram registrados como feminicídios – quando o homicídio é cometido em razão de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher. O número é maior do que em 2021, quando foram contabilizados 43 casos de mortes motivadas pelo gênero.
Para a defensora pública Rosana Leite, os números refletem uma formação desigual da sociedade, que embora esteja sendo desconstruída, continua oprimindo e matando mulheres todos os dias.
“A violência contra as mulheres sempre existiu, mas ela apareceu quando essas mulheres puderam denunciar e buscar ajuda para os seus problemas, principalmente os [problemas] de dentro de casa, já que violência doméstica e familiar é aquela que mais acontece, o que mostra que as mulheres estão vulneráveis não só fora, mas dentro da própria casa”, frisa.
Dos 101 casos de mulheres assassinadas, 68% foram esclarecidos. Sessenta e três autores foram presos em flagrante ou por mandado de prisão e 39 deles tinham alguma passagem criminal. Entre as 47 vítimas de feminicídio, 15 delas tinham filhos com os autores dos crimes, sendo que 44% delas foram mortas pelos companheiros ou namorados. Além disso, 52% dos casos de feminicídio ocorreram no ambiente doméstico.
Tragédia anunciada
Segundo Rosana Leite, a morte de mulheres que estão em situação de violência é um fim trágico já sinalizado. “O feminicídio é um delito anunciado, que pode ser prevenido, juntamente com a violência contra a mulher, que dá sinais. Como sociedade precisamos estar atentos e perceber ao longo do tempo que mulheres em situação de vulnerabilidade dão sinais. Porque se os homens estão sendo assassinados fora de casa, as mulheres estão sendo mortas dentro dela e e muitas vezes pedem socorro de diversas formas”, completa.
De janeiro a dezembro de 2022, a Polícia Civil registrou cerca de 15 mil medidas protetivas em todo o Estado. Em relação às vítimas dos feminicídios, apenas três delas tinham medida protetiva e, em 12 casos, as mulheres já possuíam algum registro anterior de violência doméstica contra os autores dos crimes.
“O crime contra mulher, seja violência doméstica ou feminicídio, afeta a sociedade como um todo. É um problema de Segurança Pública, porque homens, filhos, mães e todo um lar é desestruturado quando ele ocorre. Ao analisarmos os números, vemos poucas oscilações, mas o que nós queremos é a real diminuição da violência, e para isso é preciso um enfrentamento efetivo do Poder Público”, analisa a defensora pública.
Cenário brasileiro
No Brasil, foram 1,4 mil mulheres vítimas de feminicídio em 2022, o que representa uma média de uma morte a cada 6 horas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Quando contabilizados todos os casos, sem recorte da violência de gênero como motivação, o número atinge 40,8 mil ocorrências.